ARTIGO – “Machista, eu?” – por Cláudio Gastão da Rosa Filho

ARTIGO – “Machista, eu?” – por Cláudio Gastão da Rosa Filho

Como posso ser machista tendo sido criado pela minha doce avó? Rezo por ela todos os dias, convicto de que está nos braços de Nossa Senhora.

Esse é o meu bálsamo para aplacar a saudade que irá me acompanhar eternamente.
Como posso ser machista se tenho uma adorável esposa e filhas maravilhosas que são a razão do meu viver?
Em minha crônica publicada no último dia 30, “A Paixão no Banco dos Réus”, expus uma tese jurídica que em nada desmerece as mulheres, tanto que em situação inversa utilizei os mesmos argumentos em favor de uma que assassinou o marido e de outra que tentou matar a patroa. Mesmo assim, fui rotulado apressadamente por uma leitora como “machista”.
Fixemos no caso da empregada que tentou matar a patroa. Embora não fosse uma hipótese propriamente de crime passional, estava em julgamento um delito onde os antecedentes fáticos poderiam mitigar a pena do homicídio reconhecendo-lhe a forma privilegiada prevista no parágrafo 1º do artigo 121 do Código Penal.
Era o ano de 1994, época em que o advogado entrava no presídio e falava com o preso face to face, sem o parlatório, e às vezes podia até utilizar a sala do diretor. Quando cheguei, tive dificuldade de processar a cena: vi uma senhora de oitenta e poucos anos que chorava copiosamente e cuja fragilidade corporal contrastava com a brutal facada desferida nas costas de sua patroa que tinha mais ou menos a mesma idade.
Trabalhavam juntas há mais de 50 anos, numa relação que o tempo fez migrar do plano profissional para o pessoal, arborizada em solidariedade, amizade e respeito incondicional.
Moravam apenas as duas: a empregada, que por devoção à família e à patroa nunca se casou, e a patroa, que teve 3 filhos que cresceram, constituíram família e partiram.
Quando a idosa sentou pontualmente às 18h para tomar sua sopa diária preparada pela leal e dedicada serviçal, por senilidade e injustiça, passou a acusar a fiel empregada de ter roubado suas joias, alegando não as ter encontrado no lugar de sempre.
A acusação virou uma feroz discussão onde a desbocada patroa passou a chamar a incauta empregada de “nega imunda e vagabunda”.
Foi o quanto bastou. A empregada num acesso de ira, talvez o mais legítimo sentimento divino, e a bíblia nos conta o dilúvio que Deus mandou cansado das iniquidades do homem, desferiu uma facada nas costas da patroa, que, agonizando, esperou a ambulância e a polícia chamada pela empregada.
Voltemos ao presídio. Ao chegar e ver o choro copioso, o desespero que acreditei ser de remorso, tentei explicar que a patroa sobreviveria, menti afirmando que ela já estava praticamente recuperada e no dia seguinte seria levada para casa, e quanto mais tentava amenizar os fatos, mais desesperada ficava a empregada.
Quando vi que minhas tentativas não estavam surtindo efeito e que quanto mais eu tentava minimizar a tragédia, pior ficava o estado emocional da empregada, parei, peguei em suas mãos, fixei meu olhar no dela e indaguei: “A senhora não está entendendo? Eu estou lhe dizendo que sua patroa esta bem…”
A empregada então aos soluços respondeu: “Sim, eu entendo, e choro de raiva por não ter matado a filha da puta”.
Agora é só esperar do que irão me rotular por ter defendido, e já adianto, gratuitamente, a indigitada empregada.
Sou advogado. Procuro ser um alquimista da liberdade alheia. Minha função é discutir a culpa legal, a questão moral fica ao encargo da majestosa vingança Divina.
Somente quem não me conhece pode entrar na minha fanpage para me chamar de machista, comentário que democraticamente não apago. Esquece a leitora que sem advogado não existe Justiça, pois não tem como uma pessoa ser processada sem defesa.
Paradoxalmente, esses que se arvoram de tutores da quintessência da moralidade e dos bons costumes do secularismo moderno, ao se depararem com problemas, quando não correm para me procurar, almejam um profissional com meu perfil.
Como disse, fui criado pela minha avó e uma vizinha se recusava a pegar a elevador comigo. Um dia chegou a interpelar minha querida vovozinha para saber como o neto preferido podia defender bandido…
Certa madrugada, essa mesma senhora bateu em nossa porta muito abalada, acordando minha vó que foi me chamar. Em prantos relatou que o filho, segundo ela um rapaz de bem, tinha bebido um pouco e atropelado uma moça que veio a óbito.
Aceitei defender o familiar da intolerante e rabugenta vizinha.
Os críticos e algozes da advocacia mudam rapidinho de opinião quando o destino, por uma infelicidade ou capricho, os arrastam para a teia da justiça.

Imagem: “Mulher lendo”, de Renoir

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