ARTIGOS – “Gratidão com prazo de validade” – por Cláudio Gastão da Rosa Filho- Advogado criminalista

ARTIGOS – “Gratidão com prazo de validade” – por Cláudio Gastão da Rosa Filho- Advogado criminalista

Meu avô era meu melhor amigo, homem bom, beirando à santidade. Moramos juntos até seu falecimento. Dificilmente ele não gostava de alguém, mas lembro quando criança de suas reclamações de um “colega” de trabalho em uma extinta emissora de TV que insistia em prejudicá-lo gratuitamente.

Esse “colega” era um homem míope do ponto de vista ético e moral, e não perdia uma oportunidade em espinafrar, desmerecer e rebaixar os outros, demonstrando que a prudência, sensatez e a solidariedade, entre outras virtudes, há muito desertara de seu pobre espírito, na medida em que se arvorava de livro de registro das falhas alheias, procurando sempre subir na vida escalando as costas dos outros, o que realçava ainda mais seu caráter abominável e desalmado.

Difícil explicar porque uma criança de 7 anos registrava nos escaninhos do seu coração essa injustificável malquerença entre esse pífio e torpe homem e meu querido avô.
Por obra do destino, quase 40 anos depois, esse homem, que continuava atuando nos meios de comunicação e que tinha galgado prestígio profissional, me liga marcando um horário.
Intrigado, aceitei atendê-lo. No dia e hora agendados, entrou no meu gabinete cabisbaixo, destruído psicologicamente e, antes de relatar seu problema, disse que tinha trabalhado com meu avô e que rezava pela alma dele.

Instantaneamente me emocionei. Sou, com a graça de Deus, um homem que não perdeu a fé no ser humano. Aquilo me tocou. Achei que ele teria se arrependido do que fizera no passado e orava para se redimir.

Pedi para ele sentar e, após o relato de seu problema, que envolvia seu filho em um processo relativo à apreensão de entorpecentes, na mesma hora passei a comungar com ele a eucaristia da dor e a traçar uma estratégia legal para solucionar a questão. Quanto mais eu falava e explicava o que doravante iria ser feito, era visível perceber que sua fisionomia mudava, que acendia em seu coração a chama da esperança.

No final do atendimento me perguntou quanto devia. Disse para ele: “Vá em paz, deposite os honorários na conta corrente da amizade e continue rezando por meu avô”.
Como tinha previsto, solucionei o problema jurídico do filho desse homem que, ao ser comunicado por telefone sobre o fim de seu tormento espiritual, se recusou a tomar outro café no meu escritório. Agradeceu de forma polida e desligou.

Passaram-se alguns anos sem que tivéssemos qualquer contato. Nesse último Dia dos Pais, minhas duas filhas que vêm se destacando no hipismo ganharam, cada uma em sua categoria, importante competição. Maria Vitória, de 11 anos, e Maria Júlia, de 9, dedicaram-me os troféus e eu, movido pelo orgulho paterno, enviei então para esse jornalista que atua na área esportiva uma pequena nota. Ele me respondeu que a coluna já tinha sido fechada, mas que publicaria na próxima edição.
Fiquei animado. Disse para as meninas: “Vocês estão famosas, vão sair no jornal”.

No dia seguinte, assim que levantei, aguardei ansioso a chegada do jornaleiro para acordar as crianças com a notícia. Quando peguei o jornal, nada. Decepção. Algo deveria ter acontecido. Esperei passar uns dias e, como a nota não saía, fiz um ajuste, acrescentei um dado novo para que o assunto não “esfriasse”, e reenviei. Dessa vez, nem resposta ele me deu.
Tenho clientes de mais de 25 anos atrás. Alguns estabeleceram comigo vínculo afetivo que perdura até hoje, embora há muito tenha se rompido o laço jurídico.

Defendi assassinos que possuem mais lealdade e gratidão do que muitos homens que se dizem de bem. Aliás, não foram poucos os casos em que atuei em favor de pessoas boas, mas, que por uma infelicidade do destino e premidas por certas circunstâncias, acabaram escrevendo parte de sua biografia com o sangue de um semelhante.

Outros evitam me ver, e ao me encontrarem ao acaso geralmente acenam de forma respeitosa. Todavia, procuram fugir mais rápido do que o diabo da cruz, o que é compreensível, pois o advogado se assemelha ao padre e passa a ser o portador por vezes de atos reprováveis que a pessoa quer esquecer.

Os ingratos e os deficitários de caráter são diferentes. Para esses a gratidão tem prazo de validade. No caso do jornalista esportivo, de uma brevidade dantes nunca vista, pois sequer o café após a vitória quis tomar.

Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.