Roberto Curt Dopheide – Por que simpatizo com Bolsonaro?

Roberto Curt Dopheide – Por que simpatizo com Bolsonaro?

Acompanho, pelos noticiários, a política nacional desde 1973. Sempre gostei de acompanhá-la. Um pouco antes disso, em 1971, com 14 anos de idade, juntamente com todos os alunos do colégio, fomos levados a recepcionar o presidente Médici, em visita a Blumenau. Os alunos mais novos agitavam bandeirinhas. “Ame-o ou deixe-o”! Naquela época meu pai já me contava dos “rolos” nas importações e exportações do Porto de Santos, entre outros.

Em 1973 Ulysses Guimarães foi anticandidato à presidência da república.

Depois, como jovem estudante universitário que se preze, fui contra o regime militar, era “emedebista” num MDB bem diferente do atual. Vi Geisel fechar o Congresso. Vi Euler Bentes Monteiro, general, ser derrotado por João Figueiredo no colégio eleitoral, em eleição indireta. Vibrei ao ver Figueiredo sendo vaiado em Florianópolis em 1979 e seu ministro das Minas e Energia, César Calls, levar um tabefe em uma de suas grandes orelhas, se não me engano, de um estudante. Aquela época estava distante de ser tão dourada quanto alguns propagam, mas ainda mais distante de ser negra como outros a pintam. Lembro do esquema com joias do ministro da Justiça, Abi Ackel; do escândalo do IBC (Instituto Brasileiro do Café), do escândalo do IAA (Instituto do Álcool e do Açúcar) e das festanças do ministro Mário Andreazza nas “bocas” de Blumenau, quando de sua visita.

 Assisti às mobilizações por eleições livres, o “Diretas Já”, com centenas de milhares de pessoas tomando as ruas no país inteiro. A Rede Globo (ah, a Globo!), desde 1964 e até então, apoiava o regime militar, só começou a noticiar estas manifestações quando eram tão numerosas e maciças que não podiam mais ser escondidas (costume feio da Globo que persiste até hoje, embora sempre tão bem maquiada de “imparcial e livre”).

As últimas eleições indiretas elegeram Tancredo Neves para presidente, concorrendo, se não estou enganado, com Paulo Maluf. Tancredo, político experiente (não falava assuntos confidenciais ao telefone), mas não totalmente ilibado (qual o político que o é?), adoeceu gravemente na véspera de assumir e morreu algum tempo depois. Comoção nacional, a esperança por mudanças era grande! Assumiu seu vice, José Sarney, velho oligarca. (Ressalte-se que a posse de Tancredo não chegou a ocorrer, pelo que, em meu modesto entendimento, quem deveria ter assumido era o então presidente da Câmara de Deputados, Ulysses Guimarães).

 Sarney era especialista em enriquecer. Infelizmente não o país. Foi um desastre. Seguiram-se Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso. Este último, até que num primeiro momento conseguiu dar um certo norte ao país. Foi reeleito às custas da compra de votos no Congresso. Hoje parece ser contrário à reeleição, pelo que tem a obrigação de aceitar que também Bolsonaro possa ter mudado de opinião a respeito de determinadas questões.

 FHC terminou seu segundo mandato e o candidato pela quarta ou quinta vez, Lula, venceu a eleição. Navegando num mar nacional e internacional relativamente favorável, tendo o vislumbre de manter a política econômica vigente (que abominara por toda sua vida até então), terminou seu primeiro mandato com razoável performance.

 Depois, tudo decaiu ainda mais! Como diz mesmo o ditado? “Pobre, quando vê mel, se lambuza.” Pois é! Seguiu-se Dilma, recuso-me a fazer comentários de um poste. Foi o momento em que voltei meus olhos de ex-estudante universitário emedebista, já com mais isenção e alguma maturidade, para os passados governos militares.

 Assim como as árvores e os pomares que conhecemos em criança já não são tão frondosas e extensos quando as revemos, após muito tempo como adultos, assim também a análise do período militar já não me pareceu mais tão ruim. Havia, sim, coisa pior. Bem pior!

 Houve corrupção durante o governo militar? Sim. Houve excessos? Sim. Mas alguns fatos tornam este período bem mais palatável (para não dizer “desejável”) hoje, quando olhamos para a floresta e não apenas para algumas árvores: Fizeram muito, em termos de infraestrutura. Não foram tão maus quanto pensávamos ter sido e enfrentaram o perigo real do comunismo, este, bem mais forte do que imaginávamos.

 Se hoje ainda existe risco de “venezuelização”, naquela época o risco era bem mais acentuado. Tanto que a sociedade civil, a igreja, o empresariado e a grande imprensa queriam e aplaudiram a intervenção. Ela foi necessária. Houve censura, mas lembro que no Jornal de Santa Catarina tive a liberdade de publicar artigo criticando severamente o presidente Figueiredo durante seu mandato e nunca recebi alguma reprimenda e nem fui censurado. Alguns “lambe-botas” no poder ficaram riquíssimos, mas dos generais-presidentes nunca se encontraram fortunas. Pelo contrário, é quase certo que viviam dos seus salários e aposentadorias relativamente módicos. Veio a “abertura”, a “anistia ampla, geral e irrestrita” e alguns dos generais-presidentes disseram frases bem interessantes sobre o futuro do país. Não eram adivinhos mas conseguiam enxergar relativamente bem ao longe.

 Atualmente penso compreender bem a mágoa que tiveram em evitar o que evitaram, para saírem – diga-se a bem da verdade, voluntariamente – quase que escorraçados e amaldiçoados. O temor em cumprir funções constitucionais das Forças Armadas persiste parcial e setorialmente, até hoje. Excessos à parte, eles foram injustiçados pelo “conjunto da obra”. Tivemos ótimos índices econômicos naquela época.

 Contemplando as pesquisas eleitorais contemporâneas e seus crassos erros bem além da margem de erro, numa época de urna eletrônica que outros países – tão citados em outras comparações – não usam, chego a questionar quais dos governos, o militar, ou o democrático, tiveram, de fato, mais democracia.

 A corrupção e os desmandos atuais fazem Maluf, condenado a ressarcir os cofres públicos por ter presentado a cada jogador de futebol tricampeão do mundo no México em 1970 com um fusca, enrubescer e parecer um reles trombadinha. Época em que o roubo de “milhões” impressionava a gente. Hoje, “bilhões” são citados com cruel naturalidade.

 Como no mundo nem tudo é eterno, nem mesmo a não-alternância de poder, chega à Presidência da República o deputado de direita, Jair Bolsonaro. Numa campanha módica que não conhece precedentes, com discurso de combate à corrupção e valorização da meritocracia, mais de três décadas de experiência parlamentar às costas, no baixo clero, é verdade. Do baixo clero, assim como da geral da torcida nos campos de futebol, alguns lances não se enxergam. Outros, apenas parcialmente.

 Está há pouco menos de dois anos no poder. Conseguiu aprovação para uma reforma previdenciária, desagradável, mas imprescindível. A bolsa reage. Recusa apoiar ou ser apoiado por regimes totalitários, financeiramente criminosamente favorecidos no governo anterior. Demite alguns cujo currículo não era assim tão nobre. Corta privilégios onde é possível cortá-los. Sofre um escrutínio severo da quase totalidade da grande imprensa. Possíveis deslizes de seus filhos (deslizes sempre são condenáveis) são tratados quase como crimes de estado, enquanto os filhos de Lula, gênios financeiros, continuam no anonimato. Movimentações financeiras do presidente, em dinheiro, são esquadrinhadas, os empréstimos bilionários de Lula são citados à toda hora, mas parece que ninguém quer investigar estes últimos a fundo. Mesmo com potentes lupas, oposição e imprensa parcial não encontram roubalheira na atual esfera federal.

 Forma um bom ministério. Bate de frente com o Congresso e é criticado por isso. Esbarra com o STF e é criticado. Garantiu à imprensa, até agora (ao contrário de Lula, que expulsou um jornalista do país), a mais absoluta liberdade. Recebeu um país em frangalhos, tanto econômica quanto moralmente. Passa a conversar com o Congresso. Com seus presidentes. Com o STF. Continua sendo criticado.

 Se tenho críticas a ele? Tenho sim! Mas reconheço que houve bem mais acertos que erros. Não é novidade, para um eleitor medianamente informado, a qualidade do nosso Congresso. Mesmo aos que não leem artigos mais sérios, as mídias digitais mostram desmandos em nossa corte suprema, e aqui abro um parêntese:

 O ministro Fachin, desdizendo seu anterior pronunciamento a respeito, exarado há cerca de dois anos, decidiu que a prerrogativa legal de o presidente da república escolher livremente, de lista tríplice, o reitor de universidade federal, não é livre e a nomeação tem de recair, necessariamente, sobre o primeiro da lista. Devolvam-me o dinheiro do meu curso de direito! Para que, então, lista tríplice? Para quê? Fechando o parêntese, relembro: é com Congresso e STF assim que Bolsonaro tem de lidar e governar. Não são, em sua maioria, “gente boa”.

 Espocam críticas a que esteja defendendo seus filhos, querendo acabar com a lava-jato, fazendo acordos com o centrão. Criticavam-no quando não falava com o presidente da Câmara e do Senado, continuam criticando que agora fala com eles. Acaso há algum de seus filhos condenados, ao menos, em primeira instância? Que sejam investigados, processados, julgados e, se culpados, condenados! Enquanto isso, Lula, condenado em segunda, está livre (junto com dúzias de comparsas). Um STF regiamente pago, entre lagostas e vinhos, não prendeu ninguém, antes soltou os condenados à prisão em instâncias inferiores.

 Acaso se insurgiram de igual modo quando os filhos de Lula tiveram a ascensão fantástica que tiveram? Quando um ministro do STF concede habeas corpus ao mais perigoso traficante do país? Quando Lula disse que o Congresso tinha mais de 300 ladrões e que o Supremo era acovardado? Poderíamos enxergar aí o tal do “rabo preso”? Levando em consideração a “qualidade” bem conhecida deste Congresso, dos seus presidentes, do STF e de outras forças mais (algumas bem ocultas, como ao tempo de Jânio Quadros), alguém realmente acreditou que Bolsonaro poderia fazer tudo que desejava e propagou, dando as costas a essas forças? Lembremos de Jânio. Lembremos de Collor. Estes dois, honestos ou não, competentes ou não, deram as costas ao Congresso, pensando que poderiam governar somente com o apoio do povo.

 A questão da “governabilidade” existe, sim, e sem alianças não há como progredir. Até o crápula do Sarney afirmou, em 1988, que com a constituição que se aprovou, nenhum presidente governaria se o Congresso não quisesse deixá-lo governar.

 Um simples presidente de associação de moradores, quando assume, diz que planeja e deseja fazer uma série de coisas. Existem pessoas bem-intencionadas. Com erros, com defeitos, mas bem-intencionadas. Até mesmo um presidente de associação de moradores chega ao final de sua gestão tendo que ter conversado com quem não simpatizava, com o morador chato, com outro intolerante, com mais outro notoriamente desonesto, para conseguir, ao menos parcialmente, algo do todo que desejava alcançar. Assim é a democracia: com todos os seus defeitos, apenas o menos ruim dos sistemas, mas que exige diálogo, concessões e abertura suficiente para saber que, se não é possível fazer tudo que se quer, ceder aqui e acolá possibilita fazer uma boa parte. Não podemos imaginar ainda ser possível uma política do nove ou noventa.

 Tive, em minha vida de eleitor, raríssimas oportunidades de votar em quem realmente eu apostasse todas as minhas fichas, no sentido de ser “o cara”. Geralmente meu voto tinha de ser dado ao “menos ruim”. Nem mesmo meu voto em Bolsonaro foi assim. Nele, votei com boa dose de esperança de um Brasil melhor, e continuo acreditando nisso, ainda que tenha fraquezas. Esperava bem menos dele.

 Ele não é tudo que gostaríamos, e sofre, como todos nós, na família, no trabalho e do mundo exterior, as pressões que fazem parte da vida, a defesa dos interesses, às vezes escusos, dos demais, e nem sempre conseguimos caminhar retos como gostaríamos. No fundo, admiro que gente como ele, que poderia facilmente se reeleger deputado por mais um ou dois mandatos, depois pegar a vara de pescar, ainda se disponha a desgastar-se com as imagináveis pressões que sofre. Pessoalmente eu não aceitaria tal cargo nem se me fosse entregue de mão beijada.

 Por isso, admiro Bolsonaro, por isso simpatizo com ele. Após 47 anos acompanhando política, já não me iludo mais com a possibilidade de encontrar um salvador da pátria, perfeito, infalível. Mas, após esses mesmos 47 anos, fico contente em ver um presidente corajoso, bem-intencionado e melhor que todos que, em minha vida, lhe antecederam.

 O resto é sonho, desejo, inveja, pouca informação, ou, com benevolência, ingenuidade política. É o que penso.

Blumenau 16 de outubro de 2020

 

 

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